Lura tocou-me o ouvido e a pele com uma suave, doce e ingénua canção, “Nha Vida”, uma “súbita rosa vermelha” na minha carta geográfica, há pouco mais de dez anos.

Uma poeta muito querida, cuja carta geográfica coincide com a minha, falou-me, um dia, de “súbitas rosas vermelhas” e pensei em Lura, também figura daquela música cabo-verdiana que “de mansinho se instala na porta aberta de um coração perdido” e que “sem esforço nos guia para o reencontro do sentido perdido, voltando-nos o sul quase por milagre, quase por instinto”.

A menina de “Nha Vida” cantava, talvez, com a voz imperfeita de quem só tem 20 anos, mas nela estavam, já, todos sinais presentes, os que, como marcos, indicam o sentido dos caminhos que é preciso seguir, quando existe qualidade e cresce o talento. Lura não perdeu de vista os sinais e fez-se ao caminho, de “korpu ku alma”. Chegou ao destino como se imaginava que chegasse e tornou-se na definitiva e muito bela rosa vermelha que hoje enche de cor os nossos mapas geográficos da música.

Não adivinhei, há dez anos, o percurso de Lura e não escrevo agora sobre Lura por ser musicalmente competente para o fazer ou por ter o rigor crítico que, nesta área, muito se sustenta em profundos conhecimento técnicos, de músicas e vozes. Escrevo sobre o trabalho de Lura com o gosto de quem gosta muito de Lura, com a honra de quem se habituou a aplaudir o trabalho talentoso de uma das grandes figuras da música lusófona. E faço-o com o espírito livre dos que vivem a valorizar as emoções que nos tocam à flor da pele e reage, sobretudo, a poderosos estímulos.

Lura tem na voz e no talento elementos poderosamente estimulantes e o seu canto conduz-nos a uma zona de vida a que, somos, por conhecimento ou apenas por pura e simples percepção, particularmente sensíveis - Cabo Verde, esse país gerador da fascinante criatura cabo-verdiana, homens e mulheres capazes de construírem paraísos em qualquer ponto da desolada e lunar paisagem em que nasceram e de os encher de uma música que nos acaricia corações e almas.

Com “Nha Vida”, Lura levou-me para a atenta observação da sua carreira, prosseguida com “In Love”, um disco para a juventude a que eu há muito deixei de pertencer, e consagrada, com voz já madura, inteira, universal, em 2005, quando editou “Di Korpu Ku Alma”, um disco nobre e definitivo na afirmação de Lura como uma força da natureza cabo-verdiana, uma estrela fixa e com muito brilho no céu da música lusófona.

Agora, apresenta-nos Lura um disco com o luxuoso recorte da sua qualidade e com treze temas que não nos deixam indiferentes, puxando-nos, de “korpu ku alma”, para o ambiente musical mais intenso que uma voz pode criar, ao erguer-se, esplendorosa, da mágica concertação de acordes que são o belo suporte de um magnífico canto.

Dez anos depois, descubro-me, de novo, levado por Lura pela mão, embarcando em “Bida Mariadu” para o fascínio das ilhas, em descobertas com “No Bem Falá”, ”As-Água” ou “Mari D’Ascenson”, em movimentos de dança com “M’Bem Di Fora”, “Festa Di Nha Kumpadri” e “Fitiço Di Funana”.

Que Lura espalhe, com este seu novo e magnífico disco, o brilho da sua voz, que transforma geografias, dando-lhes dimensão e encantamento, e celebra o crioulo, esse elemento fascinante da mais doce criação portuguesa. O criador, ainda que acidental, só pode orgulhar-se da sua criatura e Lura é, já, a figura principal da música mestiça que há-de ser o traço principal do nosso futuro português.

 

David Borges