À luz da Lura

 

A voz que vive neste disco é desde há vários anos uma das mais fortes apostas que trago comigo. Depois que a ouvi cantar "Nha Vida" não tenho feito outra coisa senão anunciar a quem quer que me dê ouvidos: "Na música cabo-verdiana o futuro já tem nome – chama-se Lura."

Há sombras que iluminam. Aquelas de que se faz uma canção como esta, por exemplo. Uma voz em suave combustão, a um só tempo doce e acre, dando-nos razões para viver, e é com ela que queremos passar as horas alegres, e as horas mais tristes. Uma voz que nos leva pela mão e nos adormece no regaço.

 

"Oiçam a Lura", continuei a insistir, mesmo diante daqueles que, mais cépticos, me apontavam alguma desorientação na carreira da jovem cantora. "Nha Vida" redime o seu álbum de estreia, com o mesmo título, lançado em Lisboa a 31 de Julho de 1996, dia do seu vigésimo primeiro aniversário. No ano seguinte a canção é incluída na colectânea "Onda Sonora Red Hot + Lisbon", e a extraordinária voz de Lura sobressai, com o esplendor de um metal recém polido, por entre todas as outras. Acrescente-se que entre essas outras vozes estão algumas das mais belas, e mais conhecidas, de todo o vasto mundo onde se fala a língua portuguesa: Marisa Monte, Caetano Veloso, Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Djavan, Bonga.

 

Em 2002, já com a chancela da Lusáfrica, Lura apresenta o seu segundo álbum: "In Love". Sete das doze canções do disco foram escritas pela própria cantora. Trata-se de um trabalho desigual, talvez, mas bastou-me na altura escutar os dois últimos temas, "Ma´n ba dês bês kumida dâ", e "Tabanka assigo", para renovar toda a minha antiga fé. Dêem-lhe uma causa e a voz desta mulher transforma-se em chicote. Dêem-lhe um chão e será raiz. Dêem-lhe uma raiz e será flor.

Cumpre-se com este disco, "Di korpo ku alma", as minhas mais optimistas previsões. Chegou o futuro. Diga-se de passagem que em se tratando de Lura me foi fácil fazer de profeta. Surpreende-me, isso sim, que haja quem não tenha visto antes o que agora se fez evidente.

Oiçam Lura. Oiçam logo de entrada o poderoso "Batuku" com que ela abre o corpo e a alma. Um tema do falecido Orlando Pantera, cujo espírito ilumina aliás todo este disco, e que parece ter sido escrito de propósito para o vigor de Lura. O "batuku" está na moda, canta ela. E se não estava antes, ficará agora. Há mais três canções de Pantera: "Na ri na", "Vazulina" e "Raboita di Rubon Manel", todas entre a sátira aos pequenos gestos do quotidiano (soberba "Vazulina") e o elogio da revolta. A segunda canção do disco, "So um cartinha", é da autoria da própria Lura, uma das poucas mulheres a compor, no riquíssimo universo da música crioula.

Lura diverte-se com a prática comum em Cabo Verde de pedir aos familiares e amigos, em trânsito de ou para Lisboa, o favor de levarem apenas uma cartinha – apresentando-lhes depois uma mala cheia. É também da sua autoria, para além do emblemático "Nha Vida", a bela morna "Tem um hora pa tude", composta, segundo conta, sob o efeito inspirador de uma digressão com Cesária Évora, em Junho de 2003, por diversos países do norte da Europa. Outro nome a destacar no disco é o de Tcheka, jovem estrela em ascensão na música das ilhas, que comparece com duas fortes apostas, ambas repescadas do álbum anterior, "Tabanka assigo" e "Ma´n ba dês bês kumida dâ". Há ainda uma velha canção dos saudosos Bulimundo, "Tó Martins", sobre a emigração, tema recorrente deste grupo; e finalmente "Dzê que Dzê", de Vaíss e Luís Lima e "Padoce di Céu Azul", de Valdemiro Ferreira (Vlu), que Tito Paris já antes gravou em "Guilhermina".

Oiçam Lura. E depois vejam-na em palco, em corpo e alma, pura beleza crioula, com uma voz que não cabe nela. A experiência que ganhou no teatro, na companhia Plano Seis, ajudou-a, conforme reconhece, a interpretar as suas canções. Estou em crer, porém, que o essencial é inato. E o essencial é a paixão, a energia juvenil e, claro, o poder arrebatador de uma voz, verdadeiramente única, na qual durante anos ela própria não acreditava. "Achava que tinha uma voz de bagaço", conta, "e tinha vergonha de cantar até os Parabéns a Você". Nascida em Lisboa, em 1975, descobriu-se cabo-verdiana, sem nunca deixar de ser portuguesa, através do crioulo aprendido com as amigas da escola. Hoje orgulha-se de falar, e de escrever as suas composições, no crioulo fundo, do mais fundo chão das ilhas. Em criança queria ser bailarina. Mais tarde foi professora de natação. A música tirou-a da água. Os seus alunos ficaram a perder. Nós todos, que hoje a ouvimos, ficámos a ganhar.

Antigamente, no tempo em que o mundo era ainda um lugar ilimitado e misterioso, os cartógrafos anotavam a medo nas margens dos seus mapas – daqui em diante só há dragões. Eu atrevo-me, olhando para o futuro como naquela época os cartógrafos olhavam para o mundo, a assinalar no mapa de Lura: Daqui em diante tudo será luz. O fulgor das grandes canções.

 

Obrigado Lura.

 

José Eduardo Agualusa

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LURA – album Di korpu ku alma

 

 

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