AFIAVI MAGAZINE

LURA, O charme do Cabo-Verde !

jeudi 8 juin 2006

Ela é bela, sensual, um sorriso expressivo, tem 31 anos e já lançou 3 discos. Lura, numa voz doce e grave ao mesmo tempo e um timbre estampado “Cabo Verde”, seduz como seu pequeno arquipélago, cheio de magia musical.

Afiavi teve o imenso prazer em entrevistar Lura, a estrela “crioula” da música lusofônica, antes de seu show em Angoulême.

Afiavi : Lura, você, quando adolescente queria ser bailarina, virou professora de natação e aos 17 anos o Juka (cantor originário de São Tomé e Príncipe) convidou-a para cantar. Como foi esta sua primeira experiência ?

LURA : Foi muito boa, uma descoberta muito grande para mim pois nunca me passou pela cabeça cantar, aliás, tinha vergonha da minha voz tão grave. Cantei, comecei a gostar do som, do que ouvia e foi assim.

A.Quando veio a vontade de compor, de escrever ? Não há muitas compositoras no universo musical cabo-verdiano.

L. Foi uma necessidade. Quando fui convidada pela primeira vez para gravar um disco, eu não conhecia muita gente. Nem compositores nem pessoas que pudessem fazer músicas para eu gravar, então disse para comigo : é melhor escrever umas músicas para o meu disco. Comecei a escrever e a fazer umas compilações e fui até buscar umas composições que fazia na escola. Foi assim que comecei a escrever.

Musiques métisses 2006 ( Angoulême) (JPEG)A. Como foi o seu encontro com o Bonga ? Afinal você participou no disco dele com a música Mulemba Xangola.

L. Bom, nós vivemos ambos em Lisboa. O Bonga sempre foi um cantor conhecido. Eu, desde pequenina, sempre ouvi falar dele. E aí, um dia, ele convidou-me. Penso que foi a secretária do Bonga que me telefonou convidando-me a participar ao vivo com ele num show. Uau ! Eu vou cantar com o Bonga ! Então fizemos alguns espetáculos ao vivo e depois ele convidou-me a participar do coral, em estúdio, e mais tarde a fazer um dueto. Bom, eu disse - lhe : Você deve estar louco, mas vou fazer ! Pronto, foi assim. Uma surpresa agradável tal como tudo o que estava a acontecer na altura. Surpresas que eu ficava assim... doida de felicidade.

A. E o seu encontro com o Seu Jorge, em Paris ?

L. Infelizmente foi um bocado a correr, nos encontramos na “Fête de la Musique”, no Olympia. Eu sabia que o Seu Jorge cantava lá, e tentei encontrar-me com ele. Mas foi corrido. Não chegamos a falar muito tempo, foi só cumprimenta-lo, meio tímido. Eu só tenho a dizer que gosto muito da música dele e que espero encontra-lo mais vezes. Ele é uma grande referência da música brasileira actual do Brasil, esta terra que eu adoro e que não conheço ainda. É um grande músico.

Musiques métisses 2006 ( Angoulême) (JPEG)A. Justamente, falando do Brasil. Sempre ouço, desde Cesaria Évora até a nova geração como Mayra de Andrade, Mariana Ramos, Dulce Matias e outros, que há um grande encontro musical entre o Brasil e o Cabo Verde. Eu não senti muito isso no seu último disco, o que não quer dizer que a critico, longe disso. Somente queria saber se você se identifica com a música brasileira e, se for o caso, como você a vê no seu próprio universo musical ?

L. No meu universo ? A música do Cabo Verde já tem no seu âmago a música brasileira. Então, suavemente eu penso que ela esta lá ! Não está forte nem reivindicada porque eu quero realçar os estilos de músicas do Cabo Verde. A minha composição “So um cartinha”, é um coladeira ‘sambode’ ou seja, é uma coladeira com samba, quer dizer : lá está um sambinha no meio daquela coladeira sambada ou nos funanas sambados também. Se calhar não está por acaso, mas está ali um bocado tênue mesmo. Eu, ao vivo, costumo cantar um tema que é o “Caminho de vos sorriso”, e a música brasileira aparece de forma mais relevante ou percebe-se melhor pois já é um tema com mais influências do Brasil.

Aceito as semelhanças e a influência da música brasileira na do Cabo Verde. Alias, eu nunca tinha pensado nisso, não tinha me dado conta. Os artistas, como eu por exemplo, passam por uma fase de procura, qual é o nosso caminho, nosso estilo, então, nessa procura, eu passei pela Soul.

A. E pelo zouk

L. Sim, no meu primeiro disco, sim. Alias, no primeiro eu nem pensei no que ia gravar, fiz o que a maioria dos jovens fazia naquela época. Depois comecei a pensar e fiz o disco “IN LOVE” porque eram as influências mais fortes que eu tinha. Sempre gostei muito de Aretha Franklin, Steeve Wonder, e então queria fazer alguma coisa daquele gênero. Só que, pensando bem, de uma forma mais madura, me perguntei : Lura o que queres da vida ? E me vi respondendo : só posso mostrar aquilo que vem de mim, da minha alma, do meu sangue daquilo que é realmente meu. Então surgiu o disco “Di Korpo ku Alma”, que é meu, sou eu.

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A. Com as raízes do Cabo Verde.

L. Sim

A. Lura eu gostaria de saber como começou esta cumplicidade com o Tcheka ? Como se conheceram ?

L. Começou uma vez que o José da Silva (produtor de Tcheka também) me deu um CD com umas músicas de um compositor cabo-verdiano que eu não sabia quem era. Umas musicas que adorei. Uau, isso é lindo, gostei da maneira de escrever, da musicalidade, daqueles temas. Gravei dois que adorei. Logo em seguida ele gravou um disco e gravou os temas que eu tinha gravado com uma versão diferente. Acabamos por nos encontrar pessoalmente. Ele, ao vivo, é uma pessoa extraordinária : é super terra a terra, eu danço a toa, e ele esta sempre a compor coisas lindas. E um grande músico. Não me lembro muito bem onde eu o conheci. Pronto e vai acontecendo assim. É um grande compositor, um grande músico, admiro o muito.

Musiques métisses 2006 ( Angoulême) (JPEG)A. Lura, você que nasceu ou viveu muito tempo em Portugal, poderia nos falar da diáspora caboverdiana de Lisboa ? Se eu for a Lisboa, como faço para conhecê-los ?

L. Bom, é complicado porque agora eles já estão todos misturados ! Mas existem alguns locais específicos. Por exemplo, o “Alto Cova da Moura”, na Buraca, que é um pouquinho do Cabo Verde em Portugal, Parece aquelas favelas do Brasil, mas no bom sentido. Eles não querem sair dali pois faz-lhes pensar em Cabo Verde. Como esse lugar existem poucos pois para a sociedade parece descriminação. A diáspora caboverdiana está muito bem integrada nos lugares por onde passei. Já se casaram com portugueses, holandesas, americanos, já está tudo muito diluído. Existem ainda muitas pessoas interessadas na cultura de Cabo Verde, que é o meu caso e o de muitos outros cantores como Sara Tavares, Nancy Vieira. E existem outros que não querem mais saber de Cabo Verde, já são portugueses, não tem ligação, não se interessam. Há de tudo um pouco.

A. O seu sucesso começou em Lisboa ?

L. Tudo começou em Lisboa, mas o sucesso mesmo veio de Cabo Verde. Costumo dizer que a minha música chegou lá antes de mim, foi levada pelos cabo-verdianos de Lisboa. Mesmo que eu tenha gravado meu disco em Lisboa, foi o Cabo Verde que me reconheceu. Foi depois que viajei e fui lá cantar. Em Portugal, infelizmente eu penso, ainda não há aquela mentalidade virada para a word music. Minha música é mais conhecida pela comunidade africana que pela portuguesa e sou reconhecida pelo Cabo Verde. Mas está mudando. Tenho participado em programas de radio, em 2 ou 3 festivais em Portugal. Já vai acontecendo.

A. Após a tournée, você volta para o Portugal ?

L. Não, vou para Paris para começar a trabalhar o meu próximo CD.

A. Muito obrigada, parabéns pelo seu trabalho e boa sorte.

L. Vocês vão assistir o show né ?

A. Claro, não vamos perder este “Di Korpu ku Alma” no palco !

E LURA, “Di Korpu ku Alma” no palco, cheio de espontaneidade, alegria, jovialidade e vigor conquistou o público. Lura cantou, dançou sensualmente e explicou os diferentes estilos de música do Cabo-Verde (funana, coladeira, batuque...) hipnotizando a platéia através do seu sorriso, voz e ritmo cativantes.

Diante de tantos aplausos e pedidos de bis, Lura nos surpreendeu pois veio acompanhada de Tcheka.

E os dois, em charme e em dueto, fizeram vibrar a sala deixando no ar uma saudade e um convite ao mesmo tempo.

"Sodade" das coisas simples, de sonhos solidários, de comungar com a natureza... e um convite : visitá-los,descobrir este “ petit pays, je l’aime beaucoup - Tem morna tem coladera, Terra sabe chei di amor, Tem batuco tem funana “ ** , atraente, cordial e que possui o ritmo nas entranhas e na pele. O Cabo-Verde.

Esta frase vem da música ‘Petit Pays’, de Nando da Cruz, magistralmente interpretada por Cesária Évora.

Parabéns Lura ! Foi um momento muito bonito !

Discos:

"Nha Vida" 1996

"In Love"2002 - Lusáfrica

"Di korpo ku alma" (de corps et d’âme) - Lusáfrica

Algumas datas:

18/06/06 - Tilburg, Festival Mundial , Pays Bas / 30/06/06 - TORRES NOVAS : Teatro Virginia, Portugal / 15/07/06 - LORCA, Venue TBS, Espagne / 17/07/06 - Jazz à Montauban, France / 19/07/06 - Jimena de la Frontera, Festival, Espagne / 21/07/06 - Itxassou, Bayonne, France / 23/07/06 - Rochefort sur Mer, Festival Resonnances, France / 28/07/06 - Festival de Jazz d’Andernos...

© photos: Yabou

Eugênia Xavier e Bouya M’Baye