Nha vida contada di corpu ku alma

Lura

Lura

Lura, a jovem voz que em compassos seguros vem criando uma carreira artística eivada de alma cabo-verdiana, esteve recentemente nas ilhas da morabeza a gravar um novo video-clip para o seu próximo álbum. No intervalo dos trabalhos concedeu (de corpo e alma), um exclusivo à ÁFRICA LUSÓFONA, em que fala das diferentes fases de uma carreira que promete mais e muito mais.

Orlando Rodrigues, na cidade da Praia

ÁFRICA LUSOFONA: Quando, em 1996, gravou o CD “Nha Vida”, pensou que algum dia viria a ser uma das vozes da alma e da música de Cabo Verde, país do qual, mesmo sendo a terra dos seus pais, tinha, até então, poucas referências?

Lura: Sinceramente, devo confessar que não, se bem que, nessa altura, tenha sentido que a música já fazia parte da minha pessoa. Havia já uma forte inclinação para cantar em crioulo, porque fui aprendendo a língua em Lisboa, com os meus colegas de escola. Mas nunca pensei representar Cabo Verde desta forma e a este nível. Fui fazendo as coisas e a carreira foi tomando forma.

AL: Convive agora com uma realidade muito exigente, marcada por uma carreira profissional. Quais são as grandes diferenças entre aquele tempo e o agora?

L: Em primeiro lugar, a responsabilidade, que quase não existia, passou a ter um peso enorme, que é tanto maior quanto maior forem as exigências das pessoas que ouvem a minha música e se revêm nela. Dão-me conselhos e sugerem caminhos que não posso ignorar, uma vez que é para essas pessoas que trabalho, e é a elas que tenho de agradar. A responsabilidade de que falo também resulta do grande carinho que demonstram por mim e que procuro merecer. Tive a sorte de o meu primeiro disco ter sido bem aceite, principalmente aqui em Cabo Verde. Isso deu-me muita força para continuar, uma vez que se não tivesse havido esse entusiasmo da parte do público, não estaria hoje aqui, até porque cantar não era o meu sonho, quando era pequenina.

AL: Que papel tiveram na carreira da Lura o seu produtor, o Djô da Silva, e toda a estrutura e organização da Lusáfrica?

L: Um papel muito grande, como deve calcular, porque desde o início depositaram em mim grande confi ança, o que é condição mais que essencial para que os desafi os sejam ultrapassados. Quando comecei a trabalhar com a Lusáfrica, ainda andava à procura de um percurso próprio, de uma identidade sobre a qual construir uma eventual carreira... A minha associação à Lusáfrica veio a ser determinante nesse aspecto, pela confi ança que puseram nas minhas potencialidades e nas minhas opções. Assim, gravámos o disco “In Love” que, em termos de estilo, já era um pouco aquilo que queria de facto fazer. De seguida, fi zemos o CD “Di Korpu Ku Alma”, que veio confi rmar as minhas apetências pelos ritmos tradicionais de Cabo Verde. Agora, tanto quanto se possa dizer com segurança nestas coisas, penso que encontrei o meu caminho.

AL: Dá mostras de grande convicção quando diz que o seu caminho e a sua linha de interpretação estão definidos. Pode-se então concluir que assentam na divulgação de géneros como a Morna e a Coladeira, e na valorização de outros como o Batuco e a Tabanca?

L: Não sei se por essa ordem ou nessa proporção em que tem acontecido. Se reparar, há-de concluir que canto pouco a Morna e a Coladeira. Inclino-me mais para os géneros menos divulgados, a exemplo do Batuco, da Tabanca e, em certa medida, do Funaná. Mais tarde, poderei vir a interessar-me por outros estilos musicais de Cabo Verde, porque há muitos. Não os conheço todos, porque a minha ligação efectiva com Cabo Verde é recente e não é ainda tão profunda quanto desejaria. Vou descobrindo aos poucos este país e a sua cultura, que é minha e que assumo integralmente. A Morna e a Coladeira, graças a Deus, sempre estiveram e continuarão a estar muito bem divulgados. Por isso, enquanto artista empenhada na valorização da cultura cabo-verdiana, não me preocupam, tanto mais que, para mim, para além de identifi carem a alma de Cabo Verde, são a própria essência desta terra e deste povo. De modo que tenho privilegiado os que precisam de maior visibilidade e que são igualmente fabulosamente ricos e bonitos. De entre estes, estou perdidamente apaixonada pelo Batuco, embora goste também, e muito, da Tabanca, para além de outros géneros que têm muito das sonoridades do Jazz e do Blues.

AL: Quem é que faz as escolhas, quando se trata de seleccionar canções para um determinado disco. A Lura, ou a sua produtora tem uma palavra a dizer?

L: Posso dizer que a escolha dos temas para o meu último disco foi minha. Fiz a selecção, apresentei-a e ela foi aprovada. Mas considero que foi um trabalho em conjunto. Às vezes são-me sugeridas coisas, que aceito ou não, mas, em qualquer dos casos, discutimos tudo. Mas a última palavra é minha...

AL: Desfruta então de uma liberdade que muitos músicos não têm, na medida em que as produtoras e editoras são cada vez mais intervenientes na tomada das decisões dos artistas que representam…

L: Penso que, a esse nível sim, embora, para certos discos, há sempre um ou outro tema cuja inclusão seja pedida pela editora em função de uma circunstância determinada. Há exigências que são defi nidas pelo mercado ou pelo momento, e as quais é difícil dizer não. De qualquer forma, no meu caso com a Lusáfrica, há um trabalho de equipa, que tem dado resultados.

AL: No desenvolvimento da sua carreira há factores, nomeadamente de cariz idiossincrático... Pode-se dizer que tem duas línguas maternas, e convive com uma dupla culturalidade em que os dois lados estão cada vez mais equilibrados, muito por via do recente estreitamento da sua relação com Cabo Verde. Até que ponto isso tem sido um privilégio?

L: Tem razão quando fala de um equilíbrio cada vez mais patente entre os dois lados da minha formação cultural. Gradualmente vou dando mais atenção ao meu lado cabo-verdiano, nunca desprezando o meu eu português, evidentemente. Se vivesse cá, talvez não tivesse a noção de que é tão importante para mim a cultura caboverdiana. É próprio do ser humano não dar o devido valor àquilo em que está inserido, às coisas que tem. Quando nos distanciamos, pelo contrário, apreendemos todos os signifi cados e valorizamos tudo na justa medida. O meu caso é diferente do de inúmeros cabo-verdianos que emigraram e vivem fora do país. É algo especial porque a necessidade de saber coisas destas ilhas, a nostalgia, as saudades e a curiosidade que experimento em relação a Cabo Verde, resultam de estórias que ouvi, desde pequena, dos meus pais, que me legaram, por essa via, um património imaginário que tenho agora o privilégio de desfrutar.

AL: Alguns anos passados sobre a gravação do “Nha Vida”, que tinha pouco da alma de Cabo Verde, o que dizem as pessoas, que a ouviram então e que têm seguido a sua carreira e puderam presenciar este seu “regresso” às origens, à cultura dos seus pais?

L: (Risos) Algumas dizem-me: ah, eu já sabia que era este o caminho que procuravas! Outras dizem-me: não te disse nada na altura mas logo vi para que lado iriam pender as tuas opções artísticas.

Saber ouvir os conselhos

AL: Normalmente, o tom é de incentivo ou de quem se sente, de certa forma, “atraiçoado”?

L: Não... São, antes, de quem já sabia ou julgava intuir que a minha primeira experiência discográfi ca não revelava as minhas opções futuras. Em termos gerais, as críticas que venho recebendo têm sido muito positivas e construtivas. Ouço os conselhos com toda a atenção porque considero que não sei nada, ou sei muito pouca coisa sobre Cabo Verde. Sinto que há muita coisa por descobrir. É incrível como um país tão pequeno e com tão pouca gente tem tanta riqureza cultural e humana. É a percepção que me fi ca dos meus oito anos de contacto directo e recente com estas ilhas.

AL: A sua vida e a sua carreira desenvolvem- se entre Portugal, onde vive, Cabo Verde, por razões óbvias e França, um mercado musical por excelência com o qual a Lusáfrica trabalha preferencialmente. É complicado estar assim dividida entre esses três pólos?

L: Não tem sido difícil de gerir. Estou nisto porque gosto, é uma paixão. Eu, como aliás todos os artistas da Lusáfrica, tenho a sorte de ter um comandante (Djô da Silva) que gere as coisas muito bem. Estando em Lisboa sei perfeitamente onde vou estar amanhã, para onde é que o meu trabalho me leva. Tudo depende da organização e da disciplina.

Sou uma grande admiradora da Alcione... Olhe, Alcione, este é um convite que lhe estou a fazer. Gostaria muito de um dia estar consigo num palco e, quem sabe, fazer um dueto com a canção “Não Pense Em Mim”…

AL: E qual desses três públicos têm acarinhado mais a Lura? L: Se falarmos de contacto directo, de interacção pessoal ou de calor humano, naturalmente que responderei que é o público cabo-verdiano, sem sombra de dúvidas. Cabo Verde está em primeiro lugar. De Portugal tenho, igualmente, referências muito positivas, porque também é o meu país, é lá que vivo e é onde tenho muitos amigos e familiares. Por outro lado, a nossa cultura está a implantar-se cada vez mais em Portugal e a cada dia aparecem mais e melhores referências a esse nível, principalmente no domímio da música. Quanto a França, as coisas são bem diferentes. Os franceses têm uma forma distinta de lidar com estas coisas, e a melhor maneira de mostrarem o seu carinho é através do interesse que manifestam em relação ao que fazemos. Revelam um conhecimento muito bom da cultura e da música de Cabo Verde, o que é, aliás, muito comum, quando se trata de países ou de povos que admiram e dos quais gostam. Podem, inclusivamente, não conhecer o artista ou a sua carreira mas, se têm referências positivas do país de onde vem, estão ali, com muita atenção e, sobretudo, com muito respeito e participação.

AL: É possível determinar em que momento do percurso artístico da Lura aconteceu este clic que a projectou para uma carreira internacional?

L: Acho que começou mais fortemente com a gravação do CD “Di Korpu Ku Alma”.

AL: Que vai ser sempre um marco na sua carreira…

L: Sim, embora todos eles sejam importantes. São como os fi lhos. Mas este, realmente, representa o momento da defi nição de um percurso que estou a seguir agora com mais afi nco e mais responsabilidade e que, julgo, seguirei sempre.

AL: E o próximo disco…?

L: Está previsto para 2006. Estamos agora a fazer, com lançamento marcado para Março, uma reedição do “Di Korpo Ku Alma”, que se vai chamar “Di Korpu Ku Alma 2005”. Vai ser lançado em Paris, com oferta de um DVD contendo uma recolha de todos os espectáculos que tenho feito desde Março de 2004, quando saiu a primeira edição. Na reedição, que terá uma capa diferente, incluiremos mais três composições, todas inéditas, uma das quais foi escolhida para ser tema do clip que estamos a gravar neste momento, na ilha de Santiago.

AL: E como se chama a canção?

L: Naia.

AL: Esta versão enriquecida do “Di Korpu Ku Alma” deve-se ao facto de a primeira edição ter-se esgotado?

L: Sim, mas não só. Tem a ver com as exigências do mercado francês, porque este disco destina-se a Paris. Há lá uma forma própria de fazer as coisas, que não percebo muito bem. É dos tais assuntos que deixo ao cuidado da produtora e do Djô da Silva, que têm a exacta noção do que é necessário fazer nestes casos. Mas penso que a ideia é apostar numa divulgação mais forte, pelo que se decidiu que a reedição tinha de trazer qualquer coisa de novo e de diferente para oferecer, de modo a despertar mais interesse do que aquele que uma simples cópia suscitaria.

AL: Na primeira edição, a canção de referência, escolhida para tema do clip promocional do CD, foi “Vazulina”, do Orlando Pantera, mas a generalidade das opiniões que têm sido expressas, pelo menos aqui em Cabo Verde indicam que “Na Ri Na”, do mesmo autor, prestava-se melhor a esse papel de emblema. De qualquer forma, para a reedição, a composição eleita é “Naia”. Pode falar-nos um bocadinho mais desse trabalho?

L: Não quero nem estou autorizada a desenvolver muito esse assunto. Queremos surpreender e, para isso, decidimos guardar alguma reserva. Mas direi que o “Vazulina” foi realmente a aposta para a divulgação da primeira edição, embora o tema que mais se popularizou tenha sido, de facto, e sem dúvida nenhuma, o “Na Ri Na”. Mas pelas razões que já expliquei, “Naia” é que vai ser o rosto do “Di Korpu Ku Alma 2005”. De qualquer maneira, é-me grato saber que o disco despertou esse interesse, levando as pessoas a discutir, inclusivamente, aspectos como os que referiu.... Para um artista, não há nada melhor do que saber que os apreciadores analisam o seu trabalho ao pormenor, apontando os defeitos e as qualidades.

AL: E quanto a espectáculos e outras actividades artísticas. O que tem previsto no imediato?

L: Acabei de receber um convite pessoal do presidente da Câmara Municipal da Praia, que me disse que era a primeira artista convidada para participar na próxima edição do Festival da Gamboa, em Maio. Ainda não aceitei, mas fi quei muito sensibilizada. Antes disso, vou estar no MIDEM, no dia 24 (de janeiro último), em, Cannes. É uma mostra internacional, e muito prestigiada, de World-Music. Por isso mesmo será uma grande responsabilidade estar presente em representação de Cabo Verde. É mais uma prova de que o esforço compensa e que vale a pena continuar. Mas voltando à minha agenda para 2005, estamos neste momento a organizá-la e não posso, por isso, avançar muita coisa.

AL: Hoje em dia, as carreiras musicais desenvolvem-se, em grande medida, nas televisões. Sem uma presença regular no pequeno écran, nenhum artista tem, realmente, sucesso. Como é que se tem dado com as televisões em Portugal, onde vive?

L: Muito bem, graças a Deus. Participei recentemente em dois programas da SIC, que são o “SIC-10H00” e o “Às Duas Por Três”, além de ter estado numa emissão do canal SIC-Mulher a divulgar um trabalho promovido pela empresa Alcatel, em que vou fazer parte do júri, para a modalidade de World Music, de um concurso que será desenvolvido através da Internet. Também estive no “Entre Nós”, da RTP, fui convidada do “Nós” da 2:, e estarei brevemente no “Etnias”, da TVI. Posso dizer que não me têm faltado oportunidades para estar na televisão portuguesa, em óptimos programas e em excelentes horários.

AL: Tem essa projecção em Portugal, e em Cabo Verde ela é ainda maior. Em França, a sua carreira vai-se construindo devagar, mas com segurança, e nos países africanos de língua portuguesa é uma referência. Quanto ao Brasil, que é o país do universo da lusofonia que apresenta maiores afinidades com Cabo Verde em termos de riqueza musical, para quando o primeiro contacto?

L: Não há nada de concreto mas há coisas conversadas, e o Brasil é um país que eu tenho muita vontade de conhecer. Gosto muito da música brasileira, e sou uma grande admiradora da Alcione. Adoro aquela mulher e gostaria muito de um dia poder estar com ela pessoalmente, mas nunca tive essa oportunidade. Nem que seja apenas para falar com ela, tenho que ir um dia ao Brasil. Uma vez vim a Cabo Verde de propósito para vê-la, no Festival de Santa Maria, mas ela acabou por não vir. Também fui convidada para participar nessa edição do festival e aceitei apenas para poder ver a Alcione e falar com ela, mas não tive sorte.

AL: Conta, um dia, estar em palco com ela?

L: Pode crer que gostaria muito.

AL: Mas porque é que o convite não pode partir de si?

L: Claro que pode, e vou já aproveitar esta oportunidade: olhe, Alcione, este é um convite que lhe estou a fazer. Gostaria muito de, um dia estar consigo num palco e, quem sabe, fazer um dueto com a canção “Não Pense Em Mim”…

AL: Ou “Mamãe Velha”…

L: Podia ser também com essa canção ou com “A Loba”, por exemplo. Sei lá, são tantos os temas que ela interpreta. São bonitos e acho que são todos a cara dela.

As referências de uma artista

AL: Que outras referências tem, não só da música brasileira mas também da de Cabo Verde ou da world music?

L: Há muitas. Tenho este carinho especial pela Alcione mas também gosto de outros artistas, de diversos estilos e países. Estou a pensar no Stevie Wonder, na Anita Baker, na Aretha Franklin… Aqui em Cabo Verde são praticamente todos. Nem me atrevo a dizer nomes.

AL: Mas sei que a sua relação com o falecido Orlando Pantera e com o Tcheka (ambos compositores e intérpretes de estilos tradicionais da ilha de Santiago) foi e tem sido especial.

L: É verdade. E ambos cativaram-me pela forma como compõem e tocam. O Tcheka assina dois temas no meu disco Di Korpu Ku Alma (“Ma M’ba Dess Bess Kumida Da” e Tabanka Assigó”).

AL: São, por sinal, dois temas que não têm tido a divulgação que seria de esperar tendo em conta a qualidade melódica e poética das composições e a excelência das interpretações.

L: Quanto à interpretação, não sei, mas são, de facto, dois belíssimos exemplares da música tradicional cabo-verdiana. No que diz respeito à divulgação, devo dizer-lhe que sempre que dou qualquer concerto, é com o primeiro desses dois temas que fecho o espectáculo. Em certa medida, é a minha contribuição para que essa canção não seja esquecida e tenha o destaque que merece. Mas voltando ao autor, ele escreve de uma forma lindíssima, na mesma linha desse grande criador que foi Orlando Pantera. As composições deles têm uma grande força porque dizem coisas que muita gente não se atreveria a pôr numa canção. É ousado, mas essa ousadia é perfeitamente legítima e bem conseguida.

AL: Outra grande referência da música de Cabo Verde foi o Ildo Lobo, que faleceu recentemente. Qual foi foi a sua relação com o Ildo?

L: Foi menos duradoira do que eu gostaria. Mas enquanto durou foi boa e edifi cante para mim. Sempre tive uma atitude um bocado tímida em relação ao Ildo Lobo, como tenho, aliás, com todos os artistas e pessoas que admiro. No início, tinha difi culdade em tratá-lo por tu, como faziam todos os que o conheciam, grandes e pequenos. Ele insurgiase, claro, porque era uma pessoa muito aberta e generosa. Aos poucos fui combatendo essa timidez em relação ao Ildo, que antes de o conhecer julgava ser uma pessoa muito formal, devido à sua obra e à dimensão que ele tinha na música de Cabo Verde. E ele revelou ser exactamente o oposto.

AL: Entretanto, gravou um dueto com ele para o disco “Incondicional”, que teve edição póstuma...

L: Quando soube que o Ildo queria gravar essa canção comigo, fi quei siderada. Nem queria acreditar. É claro que era uma coisa que eu tinha em mente fazer um dia, mas nunca tive a ousadia de dizer isso a ninguém nem imaginava que pudesse chegar tão cedo. Foi a realização de um sonho, embora não tenha tido a oportunidade de estar ao vivo com ele, nessa gravação, que foi trabalho separado, de estúdio.

AL: Mas já tinham estado várias vezes juntos em concerto, embora nunca em dueto…

L: Sim, há cerca de 3 anos ambos fi zemos parte da tournée “Cesária Évora and Friends”, que nos levou a muitos países da Europa. Já antes tínhamos estado juntos naquele célebre espectáculo, também em homenagem à Cesária Évora, que se realizou em 2001 no Zénith, em Paris. E foi justamente desse concerto que nasceu a ideia da tournée, que me permitiu estar, pela primeira vez, durante um tempo prolongado, num ambiente genuinamente ligado à música de Cabo Verde. Aprendi muito com os outros artistas, não só sobre a nossa música mas também sobre outras coisas do dia-a-dia do nosso país. Costumo dizer que fi quei muito mais rica depois de ter participado nessa experiência. Basta dizer que, para além do Ildo Lobo, tínhamos a Fancha, o Luís Morais, o grupo Ferro Gaita, a Maria Alice e muitos outros. Foi também dessa vivência que me veio a inspiração para compor o tema “Tem Um Hora Pa Tudo”.

26.04.05 por africaluso

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